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Mitos da Indústria de Laticínios: Como Escolher Alimentos Climaticamente Amigáveis em 2024

Decodificamos as alegações da indústria de laticínios para identificar as escolhas alimentares mais climaticamente amigáveis, reavaliando os "erros comuns" na percepção pública.

Por Dr. Sofia Almeida4 min de leituraCoimbra, PORTUGAL
Vista aérea de uma fazenda com diversas culturas, simbolizando escolhas de alimentos climaticamente amigáveis.
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Selecionar alimentos climaticamente amigáveis é fundamental para mitigar as alterações climáticas, sendo crucial desmistificar as alegações da indústria de laticínios. Evitar "erros comuns" na perceção do impacto ambiental dos alimentos passa por compreender que a produção pecuária, especialmente de laticínios e carne, gera emissões significativamente mais altas de gases de efeito estufa e exige mais recursos do que a agricultura baseada em plantas (Poore & Nemecek, Science, 2018).

O Que São os Mitos da Indústria de Laticínios sobre o Clima?

Os mitos em torno da indústria de laticínios e o seu impacto climático resultam, frequentemente, de estratégias de comunicação que omitem dados cruciais ou focam em aspetos isolados da produção. Estes mitos podem levar os consumidores a cometer erros comuns nas suas escolhas alimentares, acreditando que certos produtos são mais sustentáveis do que realmente são. A realidade é que o setor de laticínios é um contribuinte significativo para as emissões de GEE, principalmente metano e óxido nitroso, provenientes da digestão entérica do gado e da gestão de efluentes (FAO, 2021).

Comparação visual entre leite de aveia e leite de vaca, destacando o menor impacto climático do primeiro.
Leite vegetal vs. Leite animal: Diferenças notáveis no impacto ambiental.Humane Foundation
Mito da IndústriaAlegação ComumO que a Evidência MostraO Que Dizer em Vez Disso
Laticínios são sustentáveis com agricultura regenerativaO gado 'regenera' o solo, sequestrando carbono e tornando os laticínios neutros em carbono.A agricultura regenerativa pode sequestrar algum carbono, mas não compensa significativamente as emissões de metano e as necessidades de terra e água (Project Drawdown, 2020).A pecuária regenerativa pode melhorar a saúde do solo, mas não é uma solução para o impacto climático global dos laticínios.
O leite é um alimento local e de baixo impactoComprar leite de fazendas locais reduz drasticamente a pegada de carbono.O transporte representa uma pequena fração das emissões totais de GEE dos laticínios (cerca de 5-10%). A maior parte vem da produção na fazenda (Poore & Nemecek, Science, 2018).O impacto ambiental do leite é predominantemente determinado pelos métodos de produção, não pela distância de transporte.
Sem laticínios, perdemos nutrientes essenciaisOs laticínios são insubstituíveis para obter cálcio e vitamina B12.Muitos alimentos vegetais são ricos em cálcio (vegetais de folha verde, sementes) e existem leites vegetais fortificados. A B12 é suplementada em dietas veganas (Academy of Nutrition and Dietetics, 2016).Uma dieta vegetal bem planeada pode fornecer todos os nutrientes necessários, incluindo cálcio e B12 através de fortificação e suplementos.
O subproduto de carne é eficienteComo o leite e a carne vêm do mesmo animal, é eficiente usar tudo e tem menor impacto.Vacas leiteiras muitas vezes são abatidas após a diminuição da produtividade do leite. Embora se utilize o animal, o sistema de laticínios ainda impulsiona o ciclo de vida e a sua pegada de carbono inerente (Ripple et al., Science, 2022).A produção de laticínios tem a sua própria pegada ambiental substancial, independentemente do destino final do animal.
Laticínios são parte de uma dieta equilibradaLaticínios são essenciais para uma dieta saudável e equilibrada.Muitas guias alimentares já recomendam opções de laticínios com baixo teor de gordura ou alternativas vegetais. A ciência nutricional está cada vez mais focada em fontes vegetais de nutrientes (EAT-Lancet Commission, 2019).Uma dieta equilibrada pode facilmente ser alcançada com ou sem laticínios, com foco em alimentos integrais e plant-based.
Mitos da Indústria de Laticínios versus Evidência Científica. Source: Vários (ver texto)

Quais são os principais "erros comuns" ao avaliar Alimentos Climaticamente Amigáveis?

Um dos "erros comuns" mais prevalentes é superestimar a importância da distância que um alimento viaja ("milhas alimentares") e subestimar o impacto intrínseco da sua produção. Embora o transporte contribua para as emissões, as maiores fontes de GEE para muitos produtos animais residem nas emissões da fazenda (metano entérico, gestão de estrume, uso de fertilizantes). Por exemplo, um abacate transportado por milhares de quilómetros tem menor pegada total do que queijo ou carne bovina produzida localmente (Clark & Tilman, Nature Climate Change, 2017).

A atenção excessiva às 'milhas alimentares' desvia o foco do verdadeiro elefante na sala: as emissões da fase de produção, especialmente para produtos animais. As pessoas acreditam que estão a ajudar o planeta comprando 'local', quando o impacto mais significativo vem do que realmente está na sua frigideira.

Dr. Mariana Santos, Investigadora de Sustentabilidade Alimentar, Universidade de Lisboa

Como as Dietas Baseadas em Plantas Se Destacam como Alimentos Climaticamente Amigáveis?

As dietas baseadas em plantas destacam-se como os verdadeiros alimentos climaticamente amigáveis, devido à sua eficiência significativamente superior no uso de recursos e pegada de carbono. Um estudo seminal publicado na Science por Poore e Nemecek (2018) analisou dados de 38.700 fazendas em 119 países para 40 principais produtos agrícolas, revelando que a carne bovina e os laticínios têm o impacto ambiental mais alto. Em contraste, a produção de alimentos vegetais como leguminosas, nozes, sementes, frutas e vegetais exige consideravelmente menos terra, água e energia, e emite muito menos GEE.

Emissões Médias de GEE (kg CO2eq) por 100g de Proteína do Produto

Source: Poore & Nemecek, Science, 2018

Como a Transição Energética na Agricultura e a COP Influenciam a Escolha de Alimentos Climaticamente Amigáveis?

A transição energética para fontes renováveis na agricultura, em conjunto com as discussões nas COPs (Conferências das Partes da UNFCCC), tem um papel crucial na formação de políticas que impulsionam a sustentabilidade alimentar. Embora as COPs tradicionalmente se concentrem em energia e transporte, há um reconhecimento crescente da necessidade de abordar os sistemas alimentares, que geram cerca de um terço das emissões globais de GEE (IPCC, 2022). As discussões promovem incentivos para práticas agrícolas mais sustentáveis e dietas menos intensivas em carbono, o que naturalmente favorece os alimentos climaticamente amigáveis e as alternativas vegetais.

Como Fazer Escolhas Alimentares Mais Climaticamente Amigáveis

  1. 1

    Priorize Alimentos Vegetais Integrais

    Baseie a sua dieta em frutas, vegetais, leguminosas, grãos integrais e nozes. Estes alimentos têm a menor pegada ambiental (Poore & Nemecek, 2018).

  2. 2

    Reduza o Consumo de Laticínios e Carne

    Substitua o leite de vaca por alternativas vegetais como leite de aveia, soja ou amêndoa, e a carne por proteínas de origem vegetal. Pequenas reduções já fazem uma grande diferença.

  3. 3

    Opte por Produtos Saizonais e Locais

    Compre frutas e vegetais que estejam na época e sejam cultivados na sua região. Embora o transporte seja um fator menor, consumir localmente apoia a economia regional e a frescura.

  4. 4

    Minimize o Desperdício Alimentar

    Planeie as suas refeições, compre apenas o necessário e utilize sobras criativamente. O desperdício alimentar contribui significativamente para as emissões de GEE (FAO, 2019).

  5. 5

    Apoie a Agricultura Sustentável

    Procure agricultores ou marcas que adotem práticas sustentáveis, como orgânicas, agroecológicas ou com certificação de baixo impacto climático.

  6. 6

    Informe-se Continuamente

    Mantenha-se atualizado sobre as pesquisas mais recentes em sustentabilidade alimentar. A ciência evolui, e o conhecimento permite escolhas cada vez mais conscientes.

Frequently asked questions

É verdade que o transporte é o maior contribuinte para a pegada de carbono dos alimentos?+

Não. Embora o transporte contribua, a fase de produção (especialmente para produtos animais com emissões de metano e uso da terra/água) é geralmente o maior fator da pegada de carbono de um alimento. Mudar o tipo de alimento tem um impacto muito maior do que comprar localmente (Poore & Nemecek, 2018).

Que tipos de alimentos são considerados os mais climaticamente amigáveis?+

Os alimentos mais climaticamente amigáveis são geralmente aqueles de origem vegetal, como leguminosas (feijão, lentilhas), grãos integrais, frutas e vegetais frescos. Estes requerem menos terra, água e geram menos emissões de gases de efeito estufa por quilograma de produto (IPCC, 2019).

As dietas veganas ou vegetarianas são sempre mais sustentáveis do que dietas que incluem carne e laticínios?+

Em geral, sim. Dietas veganas e vegetarianas bem planeadas têm uma pegada ambiental significativamente menor do que dietas omnívoras, principalmente devido à menor procura por produtos animais, que são intensivos em recursos e emissões (Springmann et al., The Lancet Planetary Health, 2018).

A agricultura regenerativa com gado pode tornar os laticínios e a carne mais sustentáveis?+

A agricultura regenerativa pode melhorar a saúde do solo e sequestrar algum carbono. No entanto, o metano entérico do gado e o uso extensivo de terras para pastagem e cultivo de ração representam desafios ambientais que as práticas regenerativas, por si só, não conseguem compensar totalmente em larga escala (Project Drawdown, 2020).

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