A perda de biodiversidade marinha é a diminuição e o potencial desaparecimento de espécies e da variedade genética nos ecossistemas oceânicos. As suas principais causas são a sobrepesca, a poluição, a destruição de habitats e as alterações climáticas. Reverter esta tendência exige ações globais urgentes, incluindo a criação de áreas marinhas protegidas e a redução das emissões de carbono.
Quais são as principais causas da perda de biodiversidade marinha?
As ameaças aos nossos oceanos são múltiplas e interligadas, mas podem ser agrupadas em algumas categorias principais. A sobrepesca é a principal causa direta, seguida de perto pela poluição em várias formas, a destruição de habitats essenciais e os impactos abrangentes das alterações climáticas. Estas forças não atuam isoladamente; elas combinam-se para criar uma pressão sem precedentes sobre a vida marinha.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que mais de um terço dos stocks de peixes do mundo são pescados a um nível biologicamente insustentável (FAO, 2022). A pesca industrial, em particular, utiliza métodos como a pesca de arrasto de fundo, que não só captura indiscriminadamente espécies não-alvo (captura acessória), como também destrói fisicamente habitats do fundo do mar, como jardins de corais de água fria e leitos de esponjas, que podem levar séculos ou milénios a recuperar. Além disso, estima-se que 640.000 toneladas de equipamento de pesca são abandonadas, perdidas ou descartadas nos oceanos todos os anos, criando as chamadas "redes fantasmas" que continuam a matar a vida marinha.
“Precisamos de respeitar os oceanos e cuidar deles como se as nossas vidas dependessem disso. Porque dependem.”
Como é que as alterações climáticas especificamente afetam os oceanos?
As alterações climáticas afetam os oceanos através de dois mecanismos principais: aquecimento e acidificação. Os oceanos absorveram mais de 90% do excesso de calor gerado pelas emissões de gases de efeito de estufa desde a década de 1970 (IPCC, 2021), resultando num aumento significativo da temperatura da água. Este aquecimento tem consequências diretas e graves.
O exemplo mais visível é o branqueamento em massa de corais. Corais são animais que vivem numa relação simbiótica com algas microscópicas. Quando a água aquece demasiado, os corais expelem estas algas, perdem a sua cor (ficando brancos) e a sua principal fonte de alimento, levando à sua morte se o stress térmico persistir. A Grande Barreira de Coral na Austrália já sofreu múltiplos eventos de branqueamento em massa na última década, ameaçando um ecossistema que suporta milhares de espécies. O aquecimento também força as espécies móveis, como peixes, a migrarem para os polos em busca de águas mais frias, perturbando ecossistemas e as pescarias que deles dependem.

Simultaneamente, os oceanos absorveram cerca de 25-30% do dióxido de carbono (CO2) emitido pelas atividades humanas. Quando o CO2 se dissolve na água do mar, forma ácido carbónico, num processo conhecido como acidificação dos oceanos. Isto diminui o pH da água e reduz a disponibilidade de iões de carbonato, que são essenciais para organismos como corais, moluscos (ostras, mexilhões) e plâncton formarem as suas conchas e esqueletos. A base da cadeia alimentar marinha está, assim, sob ameaça direta.
Índice do Planeta Vivo Marinho, 1970-2018
O que são "zonas mortas" e que papel desempenham na crise?
As "zonas mortas" são áreas costeiras com níveis de oxigénio tão baixos (hipóxia) que a maioria da vida marinha não consegue sobreviver. O seu número e tamanho têm aumentado drasticamente nas últimas décadas. A principal causa é a poluição por nutrientes, especialmente azoto e fósforo, provenientes de fertilizantes agrícolas, esgotos e deposição atmosférica gerada pela queima de combustíveis fósseis.
Este excesso de nutrientes que chega aos oceanos através dos rios provoca a proliferação maciça de algas (eutrofização). Quando estas algas morrem, afundam-se e são decompostas por bactérias, num processo que consome enormes quantidades de oxigénio da água. A zona morta no Golfo do México, alimentada pelo escoamento agrícola da bacia do rio Mississippi, é uma das maiores do mundo, atingindo por vezes o tamanho do estado de Israel. Estas zonas eliminam habitats vitais para peixes e invertebrados, com graves impactos na biodiversidade e na pesca comercial.
Quão eficazes são as Áreas Marinhas Protegidas (AMPs)?
As Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) são uma das ferramentas mais eficazes para a conservação da biodiversidade marinha. Quando bem concebidas e geridas, especialmente as zonas de "não-captura" (no-take zones), elas funcionam como refúgios onde a vida marinha pode recuperar sem a pressão da pesca e outras atividades extrativas. Estudos demonstram que, dentro de AMPs eficazes, a biomassa (o peso total de organismos) pode aumentar em média mais de 600%, a densidade de organismos em mais de 150%, e o tamanho dos animais em cerca de 30% (Estudo, Nature, 2014).
Para além da recuperação interna, as AMPs geram o "efeito de transbordamento" (spillover effect), onde o aumento da população de peixes leva a que indivíduos adultos e larvas se desloquem para áreas adjacentes, beneficiando as pescarias locais. No entanto, o seu sucesso global é limitado. Atualmente, apenas cerca de 7,9% do oceano está coberto por algum tipo de AMP, e menos de 3% está totalmente protegido de atividades extrativas (Marine Protection Atlas, 2024). A campanha "30x30" apela à proteção de 30% dos oceanos e terras do planeta até 2030, uma meta que cientistas consideram crucial para travar a perda de biodiversidade.
| Estratégia | Eficácia (Alta/Média/Baixa) | Principais Desafios |
|---|---|---|
| Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) | Alta | Vigilância, financiamento, deslocamento de esforço de pesca. |
| Gestão da Pesca Sustentável | Média a Alta | Definição de quotas, pesca ilegal, subsídios prejudiciais. |
| Redução da Poluição Terrestre | Alta | Requer coordenação multissetorial (agricultura, indústria, saneamento). |
| Restauração de Habitats (Corais, Mangais) | Média | Elevado custo, lento, limitado pela continuidade das ameaças primárias. |
| Redução do Consumo de Pescado | Alta | Mudança de comportamento do consumidor, resistência cultural e económica. |
Que papel desempenha a nossa alimentação na saúde dos oceanos?
A nossa alimentação tem uma ligação direta e profunda com a saúde dos oceanos, muito para além da simples decisão de comer ou não peixe. A procura global por marisco é um dos principais motores da sobrepesca. Ao reduzir ou eliminar o consumo de pescado, especialmente de espécies sobre-exploradas ou capturadas com métodos destrutivos, os consumidores podem diminuir a pressão direta sobre as populações marinhas.
No entanto, a ligação não termina aí. A produção de alimentos em terra firme tem um impacto massivo nos ecossistemas marinhos. A agricultura industrial, e em particular a pecuária, é a principal fonte da poluição por nutrientes que cria as zonas mortas. O escoamento de fertilizantes usados para cultivar ração animal (como soja e milho) e os dejetos dos próprios animais, ricos em azoto e fósforo, são transportados pelos rios até ao mar. Uma mudança para dietas mais baseadas em plantas pode reduzir drasticamente esta forma de poluição, aliviando a pressão sobre as águas costeiras. Comer menos produtos de origem animal não é apenas uma escolha ética para os animais terrestres; é também uma poderosa ação de conservação marinha.
Perguntas frequentes
A perda de biodiversidade marinha é reversível?+
Sim, em parte. Os ecossistemas podem recuperar se as pressões forem removidas. Áreas marinhas protegidas bem geridas mostram que as populações de peixes podem aumentar significativamente em menos de uma década. No entanto, a extinção de uma espécie é final e a recuperação de ecossistemas complexos como recifes de coral pode levar séculos, se for possível.
Comer peixe de aquicultura é uma boa alternativa?+
Depende. Algumas formas de aquicultura, como a de bivalves (mexilhões, ostras), têm baixo impacto. No entanto, a criação de peixes carnívoros como o salmão e o atum muitas vezes depende de grandes quantidades de peixe selvagem para ração, exacerbando a sobrepesca. Além disso, pode causar poluição local e a propagação de doenças se não for bem regulamentada.
O que é o branqueamento de corais?+
O branqueamento de corais ocorre quando os corais, sob stress devido ao aumento da temperatura da água, expelem as algas simbióticas (zooxantelas) que vivem nos seus tecidos. Essas algas fornecem a maior parte da sua energia e a sua cor. Sem elas, o esqueleto de coral branco fica visível e o coral começa a morrer de fome.
Qual é a maior ameaça única aos oceanos atualmente?+
Embora existam múltiplas ameaças interligadas, muitos cientistas apontam a sobrepesca como a maior causa direta de perda de biodiversidade marinha. A pesca industrial removeu até 90% de alguns grandes predadores oceânicos e degrada ecossistemas através de práticas destrutivas como a pesca de arrasto de fundo, impactando toda a cadeia alimentar.


